Por Lucas Pontes – Gerente de ESG e Sustentabilidade da RSM no Brasil

Sua empresa enfrenta riscos reais de interrupção operacional, ruptura de fornecimento crítico, perdas logísticas e volatilidade de receita. O "Super El Niño" de 2026 impactará operações, cadeias de suprimentos e margens até fevereiro de 2027, com efeitos mensuráveis já este ano.

O Rio Grande do Sul, que enfrentou inundações catastróficas em 2024, e a Amazônia, que registrou seca histórica em 2023, demonstram o padrão: eventos extremos interrompem operações, limitam logística e geram perdas financeiras abruptas. Há também impactos graduais: alteração de demanda por produtos ligados à sazonalidade, volatilidade em precificação de matérias-primas e pressão em margens de setores sensíveis ao clima.

Para executivos e gestores de empresas, a pergunta não é mais "se" o El Niño vai afetar negócios, mas "como gerenciar esse risco agora e identificar oportunidades de resiliência".

Qual é o fenômeno e por que 2026 é diferente?

O El Niño é um padrão climático cíclico natural que aquece a superfície do Oceano Pacífico equatorial, alterando padrões globais de temperatura e precipitação. O ciclo El Niño-La Niña, conhecido como ENSO, ocorre de forma irregular geralmente entre 2 a 7 anos e pode durar até 18 meses. O que torna 2026-2027 excepcional é sua intensidade previsível: os modelos climáticos indicam probabilidade de quase 100% de permanência até fevereiro de 2027, com comunidade científica alertando para um "Super El Niño". Além disso, chama atenção dos pesquisadores o encurtamento de intervalo entre fortes episódios do "El Niño" na era moderna:

  • De 1972 para 1982 se passaram 10 anos.
  • De 1982 para 1997, 15 anos.
  • De 1997 para 2015, 18 anos.
  • De 2015 para 2023, apenas 8 anos.
  • Se o evento previsto para 2026-2027 se confirmar como muito forte, o intervalo desde 2023 será de 3 anos.

Para mais informações sobre dados científicos, consulte a Organização Meteorológica Mundial.

No Brasil, os efeitos típicos são:

  • Norte e Nordeste: redução significativa de chuvas;
  • Centro-Oeste e Sudeste: maior irregularidade nas precipitações, ondas de calor frequentes;
  • Sul: aumento de precipitações (que contribuiu para as inundações históricas de 2024 no Rio Grande do Sul).

O diferencial em 2026 é que este ciclo se sobrepõe a uma trajetória de aquecimento global duradouro, tornando eventos extremos simultâneos e mais intensos em múltiplas regiões. O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) monitora permanentemente essas mudanças no território brasileiro.

Impactos diretos nos seus negócios

Riscos físicos agudos (eventos repentinos)

  • Interrupção de operações: inundações, deslizamentos, incêndios florestais e tempestades afetam instalações, estoques e pessoal;
  • Ruptura de fornecimento crítico: empresas com fornecedores ou bases produtivas em regiões de risco climático enfrentam falta de insumos e custos de reposicionamento;
  • Impacto logístico: redução de níveis de rios (como ocorreu na Amazônia em 2023) limita transporte fluvial; estradas danificadas aumentam custos e prazos;
  • Custos emergenciais de resposta e recuperação.

Riscos físicos crônicos (mudanças graduais e persistentes)

  • Volatilidade de margens: empresas do varejo de moda, alimentos e bebidas enfrentam alteração de demanda por efeito de sazonalidade climática;
  • Produtividade agrícola em risco: redução de chuvas no Norte/Nordeste e estresse hídrico persistente afetam produção e precificação de commodities;
  • Custo de recursos operacionais: pressão em acesso a água, energia e matérias-primas aumenta em regiões afetadas por secas;
  • Risco reputacional: empresas sem preparação climática são expostas a crítica pública em situações de desastre.

Riscos de transição (adaptação regulatória e mercadológica)

  • Regulamentação em expansão: governos intensificam exigências de divulgação de riscos climáticos, rastreabilidade de suprimentos e planos de mitigação, conforme padrões de reporte do International Sustainability Standards Board (ISSB) do IFRS, ou Conselho Internacional de Normas de Sustentabilidade;
  • Pressão de clientes e investidores: grandes compradores corporativos e fundos de investimento requerem informações sobre resiliência climática;
  • Oportunidades de custo via eficiência: empresas que antecipam investimento em redução de consumo de água, energia e resíduos ganham vantagem competitiva.

Como as melhores empresas estão respondendo

Empresas resilientes não tratam mudanças climáticas como "eventos extraordinários" fora de controle. Em vez disso, aplicam um modelo de gestão de cenários climáticos, análogo ao que já fazem com variáveis econômicas (PIB, câmbio, taxa de juros).

Ferramentas modernas permitem:

  • Mapeamento de exposição geográfica: modelos preditivos identificam latitude, longitude e infraestrutura corporativa e de fornecedores com maior exposição a riscos climáticos;
  • Simulação de cenários: análise sobre como decisões políticas e socioeconômicas relacionadas ao uso do combustível fóssil geram mudanças de temperatura média no planeta e aumentam as probabilidades de eventos extremos que alteram fluxo de caixa, margem e receita das empresas;
  • Priorização de resiliência: investimentos em redundância de suprimento, diversificação geográfica, eficiência de recursos e comunicação com stakeholders.

A diferença entre vulnerabilidade e resiliência não está em negar o risco, mas em identificá-lo, quantificá-lo e mitigá-lo com urgência.

O que sua empresa deveria avaliar agora

Para evitar ser surpreendido pelo Super El Niño 2026-2027, recomendamos que executivos e gestores façam as seguintes perguntas nas próximas semanas:

Mapeamento de exposição

  • Quais são os principais pontos de operação (fábricas, armazéns, lojas) e fornecedores críticos geograficamente expostos e vulneráveis a riscos climáticos tais como inundação, ventos fortes, deslizamentos, seca, incêndios florestais ou ondas de calor?
  • Há redundância em suprimento-crítico ou dependeremos de uma única fonte em região de risco?

Impacto financeiro

  • Como eventos extremos da intensidade prevista impactariam receita, margem operacional e fluxo de caixa nos próximos 12-24 meses? E no longo prazo?
  • Qual é o custo de interrupção de 30, 60 ou 90 dias em cada unidade crítica?

Resiliência operacional

  • Há um plano de emergência e continuidade de negócios documentado para cenários de desastre localizado?
  • Há um plano de adaptação para minimizar a vulnerabilidade das instalações físicas-operacionais aos riscos climáticos dessas localidades?
  • Como nos comunicamos com clientes, fornecedores e investidores em crise?

Conformidade e reputação

  • Stakeholders externos (clientes corporativos, investidores, reguladores) exigem divulgação de riscos climáticos? Como respondemos?
  • Qual é o risco reputacional se formos expostos como desprevenidos diante de um risco amplamente sinalizado?

Oportunidades de eficiência

  • Investir agora em redução de consumo de água, energia ou resíduos geraria economia operacional e preparação para futuro regulatório?
  • Há possibilidade de gerar novas fontes de receita para transição de baixo carbono?

Empresas que iniciarem avaliação imediata e implementarem ações nos próximos 30-60 dias conseguem mitigar eventuais danos do ciclo El Niño em curso (até fevereiro de 2027) e estarão preparadas para futuras mudanças climáticas. Não há margem para atraso.

A resiliência climática é hoje parte integral da gestão estratégica e operacional de empresas bem-preparadas. A RSM, com presença em mais de 120 países e expertise especializada em auditoria, consultoria, impostos, gestão de risco e estratégia empresarial, apoia empresas na identificação de exposição e vulnerabilidade climática, modelagem de cenários e implementação de planos de mitigação e resiliência às mudanças climáticas.

Se sua empresa busca compreender como o El Niño e mudanças climáticas impactam seus negócios e stakeholders, convidamos você a dialogar com nossa equipe de especialistas em Sustentabilidade, Risco e Consultoria Estratégica.

FAQ

1. O El Niño é realmente tão grave assim? Não é exagero da mídia?

Não. A Organização Meteorológica Mundial (OMM), órgão das Nações Unidas especializado em clima, confirmou que 2026 registrou recordes de temperatura global. Consulte os dados da OMM, modelos climáticos indicam quase 100% de probabilidade de El Niño intenso até fevereiro de 2027. No Brasil, órgãos como o Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento de Desastres) monitoram permanentemente impactos hidrológicos e geológicos. Os dados não são opinião, são observações científicas.

2. Como isso é diferente de El Niños passados?

El Niños cíclicos ocorrem regularmente. O diferencial em 2026 é que a intensidade prevista se sobrepõe a um contexto de aquecimento global duradouro, fazendo eventos extremos serem mais frequentes, intensos e simultâneos. Além disso, cadeias de suprimentos globais são muito mais complexas e interdependentes do que havia 20-30 anos atrás.

3. Se não posso controlar o clima, o que devo fazer?

Você não controla o clima, mas controla sua exposição e resposta. Mapeie quais operações e fornecedores correm risco, quantifique o impacto financeiro potencial, estabeleça planos de contingência e comunique-se com stakeholders. Isso reduz drasticamente a vulnerabilidade e demonstra governança responsável.

4. Quais setores estão mais expostos?

Todos os setores têm alguma exposição, mas alguns mais que outros: agronegócio (produtividade), varejo (sazonalidade de demanda), logística e transporte, energia e utilidades, indústria manufatureira (abastecimento de matérias-primas), seguros e finanças (risco de sinistros).

5. Há oportunidades associadas aos riscos climáticos?

Sim. Empresas que anteciparem investimento em eficiência de água, energia e resíduos ganham vantagem competitiva de custo. Além disso, o direcionamento do planejamento estratégico alinhado para uma economia de baixo carbono podem gerar novas fontes de receita e resiliência de longo prazo. Mercados emergentes de serviços de adaptação climática (consultoria, tecnologia, seguros especializados) oferecem oportunidades de crescimento.

6. Como a RSM pode ajudar empresas a lidar com esses riscos?

A RSM oferece serviços de mapeamento de exposição e vulnerabilidade climática, modelagem de cenários, avaliação de conformidade regulatória, gestão de riscos operacionais e estratégia de resiliência e oportunidades. Combinamos expertise técnica em clima e mudanças com análise financeira e risco empresarial.

7. Qual é o prazo ideal para começar?

Imediatamente. Os impactos do El Niño já estão ocorrendo em setembro de 2026. Empresas têm 5 meses até fevereiro de 2027 para mitigar danos, não para se preparar passivamente. Cada semana de atraso aumenta exposição e vulnerabilidade. Se sua empresa ainda não mapeou exposição climática, o tempo não está a seu favor.

8. Como quantificamos o impacto financeiro de um risco climático?

Começa com mapeamento de exposição (quais operações e fornecedores correm risco), estimativa de probabilidade de evento climático (modelos climáticos indicam quase 100% de probabilidade de El Niño ativo até fevereiro de 2027, os eventos já estão ocorrendo), e quantificação de impacto por cenários (interrupção de 30, 60, 90 dias; destruição de ativos; perda de receita). A questão não é se haverá impacto, mas quantificá-lo para seus cenários específicos. Ferramentas de modelagem de cenários facilitam esse exercício.

9. Investidores financeiros estão pedindo isso? É exigência ou recomendação?

Ambos. Fundos de investimento crescentemente exigem divulgação de riscos climáticos conforme padrões internacionais de reporte do Conselho ISSB-IFRS. Reguladores também começam a exigir conformidade e transparência ao mercado. Para empresas que buscam crescimento via aquisições ou captação de recursos, estar preparado já é vantagem competitiva.

10. Se começarmos agora, em quanto tempo teremos um plano de resiliência aos efeitos do Super El Niño?

O tempo de execução do plano pode variar a depender do tamanho da operação, cadeia de valor e expectativa do estudo junto à empresa. Um levantamento rápido e plano de mitigação imediata pode ser executado em 2-4 semanas. Plano completo de resiliência em 2-3 meses. Mas o ideal é começar HOJE, você já deveria estar respondendo aos impactos que estão acontecendo agora em setembro de 2026. Não há tempo para preparação teórica; há urgência de ação prática. A gestão sobre aspectos climáticos não é pontual e reativa ao Super El Niño, mas de maneira contínua no planejamento estratégico de curto, médio e longo prazo da companhia.

Referências utilizadas